O Negro na Publicidade

Mais da metade da população brasileira se considera negra ou afrodescendente, são 54% segundo dados do IBGE de 2014. Agora pegue os anúncios feitos e veja se em metade deles há negros. A resposta é simples, não há. Na verdade, somente 4% da publicidade tem personagens de pele escura e infelizmente em sua maioria, em papéis estereotipados.

Felizmente agora em 2018 esse cenário está evoluindo, mas ainda é pouco. Parte dessa mudança não está somente em colocar o negro na frente das câmeras, mas também por trás delas. Afinal, só diversidade cria diversidade. 

Até parar e escrever esse texto, eu sendo negro, não tinha me dado conta de como na minha trajetória no mercado publicitário, tive poucos iguais ao meu lado por onde passei. Isso, inclusive na faculdade.  

A questão é que o negro não se vê representado no mercado publicitário, isso acaba apagando qualquer faísca de desejo de um jovem afrodescendente seguir na área. Isso inicia um ciclo vicioso que se não tomada as decisões corretas pode nunca ter fim. 

Isso é uma gigantesca cicatriz histórica que o Brasil tem, com grande reflexo na sociedade e por seguinte na publicidade. Onde o padrão de beleza é branco e qualquer traço negro é  

estigmatizado. 

Muitos apresentam várias possibilidades de causa para que isso aconteça, mas uma já diz muito, racismo. A publicidade é um espelho da sociedade, a grande maioria das pessoas em agências é branca e tiveram uma vida bem distante do cotidiano vivido por boa parte dos homens e mulheres negras. Tudo isso ajudou a construir o modelo de publicidade que temos hoje.  

O mercado publicitário deve assumir a sua responsabilidade nisso, seja quanto no ambiente criativo, quanto no social. Algumas agências vem criando ações para promover a maior participação de negros em seus espaços criativos. Por mínimo que isso seja, já começa a se refletir na sociedade que ao se ver representada nas peças publicitárias, exige isso mais e mais.  

Essa consciência de mudança deve ser levada também aos clientes, que às vezes se mostram resistentes a utilização da diversidade em suas campanhas. Uma agência consciente do seu papel social, também educa o seu público e consequentemente todo o mercado. 

Diversidade não rima com criatividade a toa, quanto mais olhares diferentes, maior a possibilidade de conseguir enxergar mais longe.  

Já está na hora da publicidade entender que é multicolorida e todas as cores importam, seja na hora de criar ou vender. O Brasil é diverso, a publicidade também deve ser.